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"PESQUISA COM CÉLULAS-TRONCO"

Autor: MARCELO GLEISER

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Quando: 13 DE MAIO

FOLHA DE SÃO PAULO

Marcelo Gleiser

A célula e o tribunal

Pesquisa com embrião deve ser debatida sem viés religioso

Dia 20 de abril de 2007 ficará registrado como a data em que o Supremo Tribunal Federal (STF) realizou, pela primeira vez nos seus 178 anos de história, uma audiência pública. Nada como a transparência para alavancar o processo democrático que, sem ela, é inviável. A pauta não poderia ter sido mais apropriada e relevante: a decisão sobre o uso de células-tronco embrionárias nas pesquisas que visam desenvolver curas para uma série de doenças que matam ou incapacitam milhões de pessoas, do mal de Parkinson e do diabetes às paralisias causadas por danos à medula espinhal.
Fiquei orgulhoso quando soube que 96% dos senadores e 85% dos deputados federais aprovaram a passagem da Lei de Biossegurança em 2005, e que o Presidente da República fez o mesmo. Decisões como esta estão sendo duplicadas pelo mundo afora, pelo menos nos países que levam a pesquisa científica a sério, dada a promessa clínica desses futuros tratamentos. Mas meu orgulho durou pouco. Foi durante a sessão aberta do STF, onde 34 cientistas foram convidados para depor sobre a questão das células-tronco e suas implicações éticas, que a natureza do processo ficou clara.
Primeiro, é importante lembrar que a lei parou no STF devido à ação do subprocurador-geral da República, Cláudio Fonteles, que a considera inconstitucional. Seu argumento, semelhante ao de grupos conservadores aliados da Igreja Católica, é que assim que o espermatozóide funde-se ao óvulo, está se falando de um ser vivo: destruir o embrião para extrair-lhe as células-tronco seria assassiná-lo.
A questão debatida assiduamente pelos cientistas, e que monopoliza a opinião pública, é determinar onde começa a vida. Entretanto, a resposta é completamente irrelevante para este debate. Isto por que não se está propondo a criação de fábricas de embriões para extração de suas células-tronco, a clonagem de humanos ou outros cenários funestos que incitam os piores pesadelos de livros e filmes de ficção científica. O que se propõe é a utilização dos embriões que seriam descartados por clínicas de reprodução por serem inviáveis, como argumentou a pró-reitora de pesquisa da USP, a geneticista Mayana Zatz.
Que fim mais digno pode ter um embrião condenado à destruição do que participar de uma pesquisa que tem o potencial de salvar milhões de pessoas? A escolha me parece semelhante, ao menos em parte, à dos que doam seus órgãos para transplantes. Ao menos partes de seus corpos poderão ajudar aqueles em necessidade, em vez de apodrecerem sob a terra ou de serem cremadas.
Focar o debate constitucional na questão de onde começa a vida é desviá-lo para o inevitável conflito religioso, tirando seu mérito científico. Não surpreende que Fonteles, franciscano, tenha acusado a doutora Zatz, judia, de ser influenciada por sua religião, que diria que a vida começa no nascimento e não na fecundação. Ora, é claro então que a posição de Fonteles é baseada em sua fé e não em qualquer consideração científica. A primeira audiência pública do STF, um momento histórico para o Brasil, transformou-se numa troca de acusações de cunho religioso. Enquanto isso, milhões de pessoas continuam morrendo e os embriões apodrecendo nos congeladores ou no lixo.
A questão do uso de embriões decretados inviáveis para reprodução na pesquisa médica deve ser separada da questão religiosa. A missão da ciência é aliviar o sofrimento humano. A da religião também. A única inconstitucionalidade aqui é ir contra os votos dos representantes do povo e impedir que essa missão seja cumprida.


MARCELO GLEISER é professor de física teórica no Dartmouth College, em Hanover (EUA) e autor do livro "A Harmonia do Mundo"



Escrito por Prof. Vicente às 14h02
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Autor: Leonardo Boff

Quando: Setembro/2006

Tendo em vista a breve visita do Sr. Ratzinger ao Brasil, interessante ler o artigo do ex-frei Leonardo Boff a respeito do chefe do Estado do Vaticano e líder espiritual do catolicismo romano.

Mau exemplo do Papa

 A atitude do Papa Bento XVI está provocando justificadas iras entre as comunidades islâmicas por causa da infeliz citação de um imperador bizantino do século XIV segundo o qual “Maomé defendia coisas más e desumanas, como sua ordem de difundir a fé pela espada”. Mas também causou escândalo e vergonha para os cristãos. A citação é totalmente inoportuna. Sabe muito bem o Papa do enfrentamento ora existente entre o Islã e o Ocidente que faz guerra ao Afeganistão e ao Iraque e que abertamente apoia a causa israelense contra os palestinos, de maioria islâmica. Nesse contexto a citação alinha o Papa às estratégias bélicas do Ocidente. Como não se irritar contra esta atitude? Para nós cristãos a atitude do Papa nos deixa perplexos porque é da essência da fé cristã perdoar e rezar como o pobrezinho de Assis: “onde há ofensa que eu leve o perdão”. Não querendo perdoar, o Papa legitima todos aqueles que não querem pedir perdão nem na vida cotidiana, nem aos negros que escravizamos por séculos, nem aos sobreviventes dos indígenas que dizimamos. Se o Papa não faz oficialmente um ato de desculpa, nos dá um mau exemplo. Não cumpre o mandato do Senhor de “confirmar os irmãos e as irmãs na fé”. Mas este seu gesto não é isolado. Como Cardeal, se opôs à entrada da Turquia na Comunidade Européia pelo simples fato de ela ser majoritariamente muçulmana. Há pouco tempo suprimu no Vaticano a instância que promovia o diálogo Cristianismo-Islamismo. No documento Dominus Jesus de sua autoria de 15 de setembro de 2000, um dos textos mais fundamentalistas dos últimos séculos, afirma que “a única religião verdadeira é a Igreja Romana Católica” e que “os seguidores de outras religiões objetivamente se encontram, com referência à salvação, numa situação gravemente deficitária”. Não faz sentido encontros com outras religiões porque “é contrário à fé católica considerar a Igreja como uma via de salvação ao lado de outras”. Neste transfundo, não causa estranheza seu discurso na Universidade de Ratisbona. Mesmo assim, não seria mais digno ao Papa pedir claramente perdão pelas incompreensões que provocou mesmo involuntariamente? Por que não o faz? Para entendê-lo, precisa-se comprender a ideologia infalibilista que vigora no Vaticano e em geral na Igreja. Segundo ela, o Papa não pode errar, embora o dogma da infalibilidade seja muito restrito. Afirma que o Papa é somente infalível em situações bem delimitadas, gozando então, pessoalmente, daquela infalibidade que é de toda a Igreja. Mas a ideologia infalibilista atribui de forma ilegítima infalibilidade a todas palavras do Papa. Se ele pedir perdão, confessa que errou o que não é permitido pelo infalibilismo. Funciona na cabeça do Papa Bento XVI o despotismo papal formulado ainda em 1302 por Bonifácio VIII que rezava: “para cada criatura humana é absolutamente necessário para sua salvação estar submetida ao Papa em Roma”. Isso não foi abolido sequer pelo Concílio Vaticano II em 1964. Foi introduzida nos textos uma “Nota explicativa prévia” onde se reafirma que o Papa pode sempre agir “segundo seu parecer pessoal” como nomear bispos, estabelecer normas e estabelecer políticas eclesiásticas. Em outras palavras: Um Papa pode autonomamente decidir tudo; um bilhão de católicos juntos não pode decidir nada. Esse absolutismo nos faz entender as razões do Papa em não pedir perdão. Transcrição página http://www.leonardoboff.com/ de Leonardo Boff Setembro de 2006.



Escrito por Prof. Vicente às 00h16
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